Sur l'incendie de la Cinémathèque brésilienne/Sobre o incêndio da Cinemateca brasileira

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“A destruição de nossa memória audiovisual”

Texto de Eduardo Morettin, professor de história do audiovisual na Universidade, ex-membro do Conselho da Cinemateca brasileira (2007-2018), membro da ARBRE

 

No final da tarde do dia 29 de julho um incêndio atingiu as dependências de uma das sedes da Cinemateca Brasileira, localizada na cidade de São Paulo. Esta unidade vinha recebendo investimentos do Estado desde 2006 para abrigar o Museu do Cinema Brasileiro, o Centro de Referência Audiovisual e, fundamentalmente, um novo arquivo de filmes, dado que o da sede principal já se encontrava com a sua capacidade limitada.

Muitos estudos e projetos foram realizados, sempre contando com o apoio de recursos públicos, com o intuito de adaptar o antigo galpão industrial para as finalidades idealizadas. Em virtude da crise que se abateu na Cinemateca Brasileira a partir de 2013 , o trabalho continuou, em ritmo aquém do desejado, permitindo que fossem construídos três ambientes climatizados, seguindo os critérios de excelência adotados pela instituição.

Este espaço físico foi destruído pelo fogo, mas, desgraçadamente, as perdas não se restringiram ao edifício. Quatro toneladas de documentação relativa às políticas públicas para o setor cinematográfico no Brasil desapareceram para sempre, assim como equipamentos, que integrariam o futuro museu acima mencionado, e filmes, em quantidade ainda incerta. Também foram consumidos pelo incêndio parte do acervo textual do cineasta Glauber Rocha.

O esforço empreendido por trabalhadores, gestores e toda comunidade cinematográfica para que o padrão de qualidade da Cinemateca Brasileira fosse mantido não resistiu, portanto, ao descaso e ao abandono dispensados pelo governo Bolsonaro à cultura.

Desde agosto de 2020 não há técnicos que cuidem do acervo da instituição. A falta de ação do governo federal foi denunciada por todos, tendo em vista que a inépcia dos responsáveis por gerir a instituição a colocavam em risco. Não faltaram avisos, manifestos (ver o de maio de 2020) e declarações, como a dada por Kleber Mendonça Filho no último Festival de Cannes, alertando a comunidade internacional sobre a gravidade do problema.

Infelizmente, a inação federal persistiu e a destruição sobreveio.  

Queimam a Amazônia, o Pantanal, o Museu Nacional e a memória audiovisual brasileira! Não se tratam de coincidências, de fatos isolados, mas de um ataque, projeto articulado de destruição levado a cabo pelas autoridades que governam nosso país.

No dia 7 de agosto houve uma grande manifestação em frente à Cinemateca  Brasileira. Lá demonstramos nossa indignação, união e força. Este duro golpe não nos desviará da tarefa que se impõe: junto com a sociedade civil, é preciso redobrar nossa luta para que consigamos reverter esta situação calamitosa. A Cinemateca Brasileira sobreviverá!

 

Nota Bene :

  1. A Cinemateca Brasileira, criada por iniciativa de Paulo Emilio Salles Gomes em 1946, é a instituição responsável pela preservação, documentação e difusão de nossa memória audiovisual. Ela armazena e restaura o que restou dos filmes brasileiros, bem como a coleção de telenovelas e telereportagens da TV Tupi, além de milhares de documentos, como roteiros, cartazes, fotografias de cena, reportagens, correspondências, livros, câmeras, etc. No Brasil e no exterior inúmeras pesquisas e centenas de filmes realizados com material de arquivo somente chegaram a bom termo em razão da existência de seu rico e bem organizado acervo, composto por 30 mil títulos em 250 mil rolos de películas armazenados em seus vinte laboratórios climatizados e com controle de umidade. A cinefilia e o interesse pela cultura cinematográfica são fomentados a partir de mostras, cursos e sessões organizados com apurado critério nas duas salas de projeção providas com o que há de melhor e mais avançado para o setor. O corpo de técnicos capacitados viabiliza a realização das diferentes frentes de trabalho, permitindo que a Cinemateca seja uma instituição viva, aberta à riqueza, diversidade e pluralidade que caracterizam a produção cinematográfica e cultural de nosso país.

  2. Em 2013, o Ministério da Cultura interrompe o repasse de recursos federais destinados à Sociedade de Amigos da Cinemateca, organismo não governamental criado em 1962. Com o fim da parceria, mais de 100 técnicos são demitidos, um dos principais fatores que levaram à Cinemateca à profunda crise, com a interrupção de inúmeros trabalhos e que se encontra na origem do incêndio que afetou em 2016 o acervo de nitratos, quando mais de 500 títulos foram perdidos para sempre.

 

Ver mais :

-     Comunicado da International Federation of Film Archives (FIAF) do 30 de julho 2021 ;

-     O PDF do artigo seguinte : Darlene J. Sadlier, « The Taking of the Cinemateca Brasileira », Black Camera, Bloomington, vol. 12, n°2, printemps 2021, p. 591-608.

 

 

 

« La destruction de notre mémoire audiovisuelle »

Texte d’Eduardo Morettin, professeur d'histoire de l'audiovisuel à l’Université de São Paulo, ancien membre du Conseil scientifique de la Cinemateca Brasileira (2007-2018), membre d’ARBRE

 

Le 29 juillet dernier en fin d'après-midi, un incendie a touché les dépendances d'un des sièges de la Cinemateca Brasileira, située dans la ville de São Paulo. Ces locaux étaient, depuis 2006, l’objet d’investissements de l'État fédéral pour accueillir le musée du cinéma brésilien, le centre de référence audiovisuel et, surtout, une nouvelle cinémathèque, car ceux du bâtiment principal étaient devenus trop exigus.

Pour cela, de nombreuses études et projets ont été réalisés, grâce à des ressources publiques, afin d'adapter cet ancien hangar industriel. En dépit de la crise qui a frappé la Cinemateca Brasileira à partir de 2013, les travaux se sont poursuivis, bien qu’à un rythme inférieur à celui souhaité, permettant la construction de trois espaces climatisés, suivant les critères d'excellence adoptés par l'institution pour la préservation des collections.

Cet espace physique a été détruit par un incendie, mais, malheureusement, les pertes ne se sont pas limitées au bâtiment. Quatre tonnes de documentation sur les politiques publiques pour le secteur cinématographique au Brésil ont disparu à jamais, ainsi que des équipements qui devaient intégrer le futur musée mentionné ci-dessus, et des films, en quantité encore incertaine. Une partie des archives textuelles du cinéaste Glauber Rocha a également été consumée par le feu.

L'effort mené par les fonctionnaires de l’institution, les chercheurs et l'ensemble de la communauté cinématographique pour maintenir le niveau de qualité de la Cinemateca Brasileira n'a pas résisté, par conséquent, à la négligence et à l'abandon de la culture par le gouvernement Bolsonaro.

Depuis août 2020, il n'y a en effet plus de techniciens pour s'occuper des collections de l'institution. La dangereuse inaction du gouvernement fédéral a été maintes fois dénoncée. Les avertissements, les manifestes (notamment celui de mai 2020) et les déclarations, comme celles de Kleber Mendonça Filho lors du dernier Festival de Cannes, n'ont pourtant pas manqué pour alerter la communauté internationale sur la gravité du problème.

Malheureusement, l'inaction fédérale a persisté et la destruction est arrivée. 

Sont ainsi dévorées par les flammes l'Amazonie, le Pantanal, le Musée national (septembre 2018) et la mémoire audiovisuelle brésilienne ! Il ne s'agit pas de coïncidences, de faits isolés, mais d'une attaque, d'un projet de destruction mené par les autorités qui gouvernent notre pays.

Le 7 août, une grande manifestation a eu lieu devant la Cinemateca Brasileira. Nous y avons manifesté notre indignation, notre union et notre force. Ce coup dur ne nous détournera pas de la tâche à accomplir : avec la société civile, nous devons intensifier notre lutte pour que cette situation calamiteuse ne perdure pas. La Cinemateca Brasileira survivra !

(Traduction par le bureau d’ARBRE)

 

Nota Bene :

  1. La Cinemateca Brasileira, créée à l'initiative de Paulo Emilio Salles Gomes en 1946, est l'institution responsable de la préservation, de la documentation et de la diffusion de notre mémoire audiovisuelle. Elle conserve et restaure ce qui reste des films brésiliens, ainsi que la collection de telenovelas et de téléréportages de TV Tupi, en plus de milliers de documents tels que des scénarios, des affiches, des photographies de scènes, des rapports, de la correspondance, des livres, du matériel technique, etc. Au Brésil et à l'étranger, d'innombrables recherches et des centaines de films réalisés à partir de matériel d'archives n'ont pu aboutir que grâce à l'existence de sa collection riche et bien organisée, composée de 30 000 titres sur 250 000 bobines de film stockées dans ses vingt laboratoires climatisés et à l’humidité contrôlée. La cinéphilie et l'intérêt pour la culture cinématographique sont attisés par des expositions, des cours et des séances soigneusement organisés dans les deux salles de projection dotées d’équipements de pointe. Le personnel, formé de techniciens, permet de mener ces différentes activités, faisant de la Cinémathèque une institution vivante qui reflète la richesse, la diversité et la pluralité qui caractérisent la production cinématographique et culturelle de notre pays.

  2. En 2013, le ministère de la Culture interrompt le transfert des fonds fédéraux à la Société des amis de la Cinémathèque, une organisation non gouvernementale créée en 1962, entraînant le licenciement de plus de 100 techniciens. L’institution entre alors en crise, de nombreux travaux sont interrompus et un premier incendie a lieu en 2016.

 

Voir aussi :

-        Le communiqué de la International Federation of Film Archives (FIAF) du 30 juillet 2021 ;

-        Le PDF de l’article suivant : Darlene J. Sadlier, « The Taking of the Cinemateca Brasileira », Black Camera, Bloomington, vol. 12, n°2, printemps 2021, p. 591-608.

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